quinta-feira, 24 de julho de 2014

“O modelo dos modelos ”
Italo Calvino

“Houve na vida do senhor Palomar uma época em que sua regra era esta: primeiro, construir um modelo na mente, o mais perfeito, lógico, geométrico possível; segundo, verificar se tal modelo se adapta aos casos práticos observáveis na experiência; terceiro, proceder às correções necessárias para que modelo e realidade coincidam. [..] Mas se por um instante ele deixava de fixar a harmoniosa figura geométrica desenhada no céu dos modelos ideais, saltava a seus olhos uma paisagem humana em que a monstruosidade e os desastres não eram de todo desaparecidos e as linhas do desenho surgiam deformadas e retorcidas.”

A educação especial já foi considerada uma forma segregada de ensino, que visava o enquadramento de pessoas deficientes nos padrões ideais de uma dada normalidade.  As distorções eram entendidas como deficiências, e não como diferenças inerentes à espécie humana.  Cabia a elas a devida adequação, caso contrário, estariam à margem, sem o devido acesso à informação e à possibilidade de desenvolvimento de seus potenciais.

 [...] A regra do senhor Palomar foi aos poucos se modificando: agora já desejava uma grande variedade de modelos, se possível transformáveis uns nos outros segundo um procedimento combinatório, para encontrar aquele que se adaptasse melhor a uma realidade que por sua vez fosse feita de tantas realidades distintas, no tempo e no espaço. [...] Analisando assim as coisas, o modelo dos modelos almejado por Palomar deverá servir para obter modelos transparentes, diáfanos, sutis como teias de aranha; talvez até mesmo para dissolver os modelos, ou até mesmo para dissolver-se a si próprio.

Estudos na área da Educação Especial foram importantes para a proposição de um modelo de educação inclusiva, devendo a educação especial ser oferecida de preferência no Ensino Regular, conforme LDB nº 9394/96, garantindo assim o acesso e a permanência de todos no sistemas de ensino, em consonância com a Declaração de Salamanca.  Assim, a escola possibilita o acesso às pessoas com necessidades especiais e em seguida promove as devidas adaptações estruturais e curriculares.  A diversidade começa a ser entendida como uma realidade a ser trabalhada, abrindo espaços para a revisão das práticas e saberes docentes.

“Neste ponto só restava a Palomar apagar da mente os modelos e os modelos de modelos. Completado também esse passo, eis que ele se depara face a face com a realidade mal padronizável e não homogeneizável, formulando os seus “sins”, os seus “nãos”, os seus “mas”. Para fazer isto, melhor é que a mente permaneça desembaraçada, mobiliada apenas com a memória de fragmentos de experiências e de princípios subentendidos e não demonstráveis. Não é uma linha de conduta da qual possa extrair satisfações especiais, mas é a única que lhe parece praticável.”

Neste processo de inclusão escolar os alunos com necessidades especiais contam com o trabalho do professor do AEE, aquele que identifica o aluno, suas potencialidades bem como as barreiras impostas por sua deficiência, apontando caminhos, recursos e novas possibilidades para o acesso à informação, à comunicação, promovendo assim o desenvolvimento de sua autonomia e a inclusão educacional/social do indivíduo.  Não se prende à modelos érfeitos e uniformes e entende as diferenças como rico material humano, sendo o processo de inclusão benéfica não só para os incluídos mas para todos os envolvidos.


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