“O modelo dos modelos ”
Italo Calvino
“Houve na vida do
senhor Palomar uma época em que sua regra era esta: primeiro, construir um
modelo na mente, o mais perfeito, lógico, geométrico possível; segundo, verificar
se tal modelo se adapta aos casos práticos observáveis na experiência;
terceiro, proceder às correções necessárias para que modelo e realidade
coincidam. [..] Mas se por um instante ele deixava de fixar a harmoniosa figura
geométrica desenhada no céu dos modelos ideais, saltava a seus olhos uma
paisagem humana em que a monstruosidade e os desastres não eram de todo
desaparecidos e as linhas do desenho surgiam deformadas e retorcidas.”
A educação especial já foi considerada uma forma segregada
de ensino, que visava o enquadramento de pessoas deficientes nos padrões ideais
de uma dada normalidade. As distorções
eram entendidas como deficiências, e não como diferenças inerentes à espécie
humana. Cabia a elas a devida adequação,
caso contrário, estariam à margem, sem o devido acesso à informação e à
possibilidade de desenvolvimento de seus potenciais.
[...] A regra do
senhor Palomar foi aos poucos se modificando: agora já desejava uma grande
variedade de modelos, se possível transformáveis uns nos outros segundo um
procedimento combinatório, para encontrar aquele que se adaptasse melhor a
uma realidade que por sua vez fosse feita de tantas realidades distintas, no tempo
e no espaço. [...] Analisando assim as coisas, o modelo dos modelos almejado
por Palomar deverá servir para obter modelos transparentes, diáfanos, sutis
como teias de aranha; talvez até mesmo para dissolver os modelos, ou até mesmo
para dissolver-se a si próprio.
Estudos na área da Educação Especial foram importantes
para a proposição de um modelo de educação inclusiva, devendo a educação
especial ser oferecida de preferência no Ensino Regular, conforme LDB nº
9394/96, garantindo assim o acesso e a permanência de todos no sistemas de
ensino, em consonância com a Declaração de Salamanca. Assim, a escola possibilita o acesso às
pessoas com necessidades especiais e em seguida promove as devidas adaptações
estruturais e curriculares. A diversidade
começa a ser entendida como uma realidade a ser trabalhada, abrindo espaços
para a revisão das práticas e saberes docentes.
“Neste ponto só
restava a Palomar apagar da mente os modelos e os modelos de modelos.
Completado também esse passo, eis que ele se depara face a face com a realidade
mal padronizável e não homogeneizável, formulando os seus “sins”, os seus “nãos”,
os seus “mas”. Para fazer isto, melhor é que a mente permaneça desembaraçada,
mobiliada apenas com a memória de fragmentos de experiências e de princípios
subentendidos e não demonstráveis. Não é uma linha de conduta da qual possa
extrair satisfações especiais, mas é a única que lhe parece praticável.”
Neste processo de inclusão escolar os alunos com
necessidades especiais contam com o trabalho do professor do AEE, aquele que identifica
o aluno, suas potencialidades bem como as barreiras impostas por sua
deficiência, apontando caminhos, recursos e novas possibilidades para o acesso
à informação, à comunicação, promovendo assim o desenvolvimento de sua
autonomia e a inclusão educacional/social do indivíduo. Não se prende à modelos érfeitos e uniformes
e entende as diferenças como rico material humano, sendo o processo de inclusão
benéfica não só para os incluídos mas para todos os envolvidos.





